Maracujá!

A presença de António, Sandra e Vanessa na web

Hoje regressei aos meus treze anos. E não gostei.

Publicado em 10 de Maio de 2012 às 1:20 por
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Hoje senti-me de novo como se tivesse 13 ou 14 anos. Foi com esta idade que fui a Lisboa, pela primeira vez completamente sozinha. Sei que fui tratar de burocracia, mas não me consigo lembrar do quê. Lembro-me que ia ansiosa, nervosa, expectante e lembro-me que ao sair do barco no Terreiro do Paço me sentia tonta e apreensiva. O espaço era grande, com muito trânsito e muitas pessoas de passo apressado que se moviam em todas as direcções. Fiquei com dores de cabeça. Mas o que mais me chocou foram os dois homens, de roupas esfarrapadas, pele encardida, garrafa de vinho a jeito e que se quedavam sentados no chão ao lado de grandes sacos de plástico cheios de farrapos tão nauseabundos quanto os que traziam vestidos. Estavam debaixo das arcadas do Terreiro do Paço e lembro-me de ter ficado horrorizada. Era a primeira vez que via, assim ao vivo, pessoas sem-abrigo.

Hoje, essa sensação de choque e horror regressou e tenho agora a sensação que fiz o mesmo de há mais de 25 anos atrás. Não consegui deixar de os fitar e de os observar sem qualquer reserva, esquecendo-me das boas maneiras que os meus pais tanto se esforçaram por me inculcar. Foi na estação do Oriente. Contei 34. Mas existiam muitos mais cobertores estendidos, papelões e sacos ou malas que não tinham por perto o seu proprietário. Ainda não eram dez da noite e certamente iriam chegar mais. Um tinha um carrinho de compras para transportar os seus haveres. Outros  tinham sacos de desporto, mochilas de campismo ou mesmo malas de viagens daquelas com rodinhas. A maior parte teria entre os 30 e os 50 anos. Havia alguns mais novos. Algumas mulheres também. Alguns tinham telemóveis e phones nos ouvidos. Nenhum tinha uma garrafa de vinho por perto ou pelo menos visível. As roupas não estavam em farrapos e a pele não estava encardida. Mas o olhar era o mesmo. Um olhar sem esperança, sem vida. Gasto, velho, apagado, apático, resignado.

E tive vontade de chorar. Outra vez.

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