Sobre responsabilidade social e jornalistas
( temas focados: jornalismo, política, sociedade )
Assisti no dia 27 de Janeiro à Conferência “European Left – Achievments, failures and challenges” organizada pelo ISCTE-IUL em Lisboa. Após o painel em que intervieram representantes dos vários partidos políticos da Esquerda Portuguesa, houve lugar aos comentários da conceituada jornalista São José Almeida do jornal Público. Fiquei surpreendida com o teor das suas afirmações. Passo a explicar.
Cara São José Almeida, bem sei que frases feitas e populismos são poderosamente apelativos e convenhamos que é até difícil fugir a eles, que tão subrepticiamente se nos insinuam e alojam nos meandros dos nossos cérebros. E os jornalistas são primeiro que tudo seres humanos e não fogem a estas regras do Universo. Mas um jornalista, pela responsabilidade que decorre da sua profissão, tem o dever e deve ter o zelo de combater esses populismos, esses mitos sociais e a desinformação que deles decorre. Tem a responsabilidade acrescida de conhecer a política do seu país, os seus intervenientes e as ideias que cada um defende. Só assim poderá desempenhar eficientemente a sua profissão que é, no essencial, informar os cidadãos e apresentar-lhes os factos de forma isenta.
Por isso e porque sei que defende que “a pujança de uma democracia assenta, em grande parte, no papel de consciência crítica que o jornalismo representa” me surpreendeu que caísse no erro, ainda que num ambiente controlado como o da Academia, de reforçar os populismos que poluem o panorama político e social do país, que afastam os cidadãos da política, que desencantam, desalentam e se vão sedimentando e crescendo como um cancro que corrói o exercício da cidadania e mina a pujança da democracia. Surpreendeu-me ouvi-la dizer que o país está na situação em que está também porque a Esquerda não apresenta ou não apresentou alternativas à Troika e ao FMI.
Que o cidadão comum desconheça os programas políticos de cada partido, as ideias e propostas que defendem ou as iniciativas que apresentam na Assembleia da República é, infelizmente, explicável e até desculpável. Que uma conceituada jornalista de um conceituado jornal nacional alegue esse desconhecimento é ridículo.
Quanto aos outros, que falem por si. Mas no que diz respeito ao Bloco de Esquerda relembro-a, cara São José Almeida, da proposta da auditoria e da renegociação da dívida, heresia das heresias há um ano mas que agora enche a boca dos mais (in)suspeitos. Relembro a taxação das grandes fortunas, da banca e das mais valias urbanísticas, a criação de investimento público para estimular a criação de emprego e consequentemente o crescimento da economia. Relembro ainda o imposto sobre o património imobiliário, o imposto solidário, a renegociação das parcerias público-privadas, a tributação das transferências para as offshore ou os programas de reabilitação urbana, de apoio à terceira idade e de reconversão energética para a criação de emprego. Estas são apenas algumas das propostas do Bloco alternativas à austeridade e à política que está a afundar o país. Estou certa que a São José Almeida não terá qualquer dificuldade em aceder de forma privilegiada a todas as propostas do Bloco de Esquerda. Bem como, aliás, às de qualquer outro partido.
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