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Sobre os independentes

Os independentes a que me refiro neste artigo são aquelas pessoas que concorrem a cargos políticos integrados nas listas de um partido, apesar de não estarem nele filiadas.  Parece ter-se gerado na sociedade um consenso sobre estas candidaturas e sobre o seu significado de abertura da política e dos partidos à sociedade civil (não são os partidos uma expressão da sociedade civil?).  Para a generalidade dos comentadores, a inclusão de pessoas não ligadas aos partidos como candidatos a uma qualquer eleição é um sinal de democracia a ser louvado publicamente em todas as ocasiões.

Compreendo que quer para os partidos políticos quer para os candidatos independentes esta simbiose seja agradável e proveitosa.  Os partidos beneficiam da visibilidade de uma figura pública, ou pelo menos conhecida nalguns nichos específicos de eleitores, que poderá significar um aumento de votos no acto eleitoral.  Para o independente a candidatura também tem as suas vantagens, como sejam a promoção da imagem pessoal ou da causa particular que defende e a possibilidade de ser eleito para um cargo político.  Mas, tal como nas relações de cooperação no meio natural, também neste caso é interessante perceber se alguém sairá prejudicado desta associação.  Por exemplo, a relação entre búfagos e búfalos, apesar de claramente benéfica para ambos, é prejudicial para as carraças e outros parasitas dos búfalos, o que para muitos passará despercebido dada a má opinião que a maior parte das pessoas tem de qualquer parasita.  Obviamente, quando se é uma carraça a visão do mundo é diferente.  Também na associação entre independentes e partidos é necessário alargar um pouco o ângulo de visão para perceber quem sai a perder.  Quando um independente é eleito terá de tomar decisões, seja em voto numa assembleia ou em resoluções executivas, sobre muitas matérias e é natural que chegue uma altura em que numa dessas matérias a sua opinião particular ou interesse do nicho de onde é proveniente serão diversos da orientação ou matriz política do partido pelo qual foi eleito.  O que fazer então, qual o sentido que deverá tomar a sua posição?  Pode optar por três caminhos:

  • Escolhe manter-se fiel aos seus interesses, defraudando a expectativa legítima dos eleitores que votaram no partido conscientes da posição deste sobre a matéria em causa;
  • Escolhe a disciplina partidária, indo contra aqueles que, levados pela sua personalidade, votaram num partido com um programa político antagónico das suas opiniões;
  • Abstem-se, desiludindo uns e outros.

Ou seja, na associação entre independentes e partidos políticos os prejudicados são os eleitores, forçados a votar num projecto ambíguo.

Naturalmente, pode dar-se o caso de um independente cuja posição política seja absolutamente coincidente com a do partido pelo qual concorre.  Mas aí pode perguntar-se: se assim é, porque não se filia no partido eliminando as dúvidas?  A não ser que esteja impossibilitado de o fazer (por exemplo, por ter uma profissão em que isso não seja permitido legalmente) é um dever democrático associar-se a quem comunga dos seus ideais políticos e de governação pública.  Se não o faz por temer que a sua liberdade de movimentos ou influência na sociedade sejam prejudicadas pela ligação assumida a um partido político, concorrer como independente não é um sinal de democracia ou abertura — é, antes, um exemplo prático de calculismo e hipocrisia por parte de concorrentes e partidos e de falta de cultura democrática na sociedade.

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