Maracujá!

Sítio web pessoal de António Manuel Dias e família

Porque não quero ter filhos

Esta é uma “explicação” para aquelas pessoas extremamente irritantes que em conversas casuais ou nos encontros familiares me perguntam: “Então e tu, para quando é o bebé?” e quando ouvem a resposta: “Para nunca” olham-me como se fosse uma ave rara, colocam logo um ar muito condescendente e dizem: “Ainda és nova, daqui a uns anos vais querer, de certeza” ou, “quando tiveres a minha idade vais ter vontade de ter um filho” ou ainda, e esta deixa-me sempre de olhos esbugalhados e literalmente (mas momentaneamente) sem palavras: “mas tens que ter um filho, senão nunca te sentirás uma mulher de verdade”. O quê?! Serei eu então uma mulher falsa e a minha mãe nunca me avisou? Está bem, faço uma concessão à argumentação de que o objectivo de qualquer espécie (incluindo a nossa) é a reprodução e passo a explicar a minha contra-argumentação. Apesar dos instintos “animais” ou não que temos ao longo da nossa vida, somos antes de tudo, seres racionais, que podem e devem pensar sobre o que fazem. E foi isto, simplesmente, que eu fiz. Eu nunca quis ter filhos, não quero ter filhos e admira-me muito que venha a querer ter filhos. Ter filhos, ou mais precisamente, conceber filhos, neste mundo e neste momento da História Humana vai contra os meus princípios e acho mesmo que é um crime!  Que aqueles que têm filhos não se sintam ofendidos. Eu respeito a posição de cada um (mesmo que não concorde com ela) mas também exijo que respeitem a minha.

O mundo está a rebentar pelas costuras, os recursos cada vez são menos e as pessoas cada vez são mais. Estima-se que daqui a 20/25 anos (segundo cientistas que julgo competentes) apenas metade da população mundial terá acesso a água potável. As guerras sucedem-se, os desastres naturais também. Infelizmente a estupidez humana parece também crescer proporcionalmente. Os partidos de direita (re)começam a ganhar visibilidade um pouco por toda a Europa e perdem-se do dia para a noite direitos conquistados arduamente por outros mais corajosos e menos hipócritas que nós. A África na sua maioria tem demasiada gente com demasiada fome, a Doença vai-se abatendo sobre ela sem que ninguém queira fazer nada e com a Santa ajuda da Religião (qualquer versão) ainda se há-de propagar mais, mas este será um assunto para outro artigo num futuro mais ou menos próximo. Entretanto, a América consegue sozinha acumular as mais altas taxas de estupidez mundial e parece-me que este caso não precisa de explicações. Cada vez há um maior hiato entre ricos e pobres. Os primeiros são cada vez menos e os últimos cada vez mais e blá blá blá, poderia continuar nisto durante horas e horas. Agora, por favor, expliquem-me, porque carga de água quereria eu colocar uma criança num mundo destes? Só se fosse realmente muito sádica! Desculpem, mas eu não consigo mesmo ver outra razão. Só se experimentasse um grande prazer com o sofrimento dos outros. Parece-me que é quase impossível viver sem sofrimento ou sem causar sofrimento a outros e só para vos dar um exemplo, pensem nos salários miseráveis, no trabalho infantil, na exploração de outros seres humanos que são necessários para podermos aceder a bens (por vezes essenciais) um bocadinho mais baratos. Este mundo está todo errado…

Mas existe ainda outro argumento muito importante que só vem reforçar a minha posição. Qual é a legitimidade de colocar mais uma criança neste mundo quando já cá há tantas que não têm absolutamente ninguém? Pensem bem. As crianças que eu pudesse ter iriam ocupar o lugar de outras que já existem e que passam os dias em centros de adopção há espera que alguém queira ser a sua família. Aqui surge invariavelmente a expressão muito chocada das pessoas que exclamam: “mas assim nunca será mesmo o teu filho/a! Sabes lá como é que ele/a vai sair. Nunca vai ter os teus genes!” Por favor…eu acho que se esforçarem mais um bocadinho até conseguem fazer melhor e debitar ainda mais estupidez em menos tempo! Mas por que é que alguém no seu estado normal há-de querer outro indivíduo no mundo igualzinho a si? Porque é que os filhos são sempre vistos como a possibilidade de um “Eu pequenino”? Uma cópia de si próprio? Cada ser humano é um indivíduo único, diferente de todos os outros e ainda bem que assim é! Eu não quero um filho para satisfazer os meus desejos, para realizar os meus sonhos, para ser o que eu não fui. Se algum dia vier a adoptar uma criança será em primeiro lugar para dar a esse indivíduo a possibilidade de uma vida melhor em todos os sentidos e se esse indivíduo me trouxer satisfação e realização pessoal tanto melhor. Se não, também não é esse o objectivo principal. A maior parte das pessoas que têm filhos e com quem tenho falado, ou tiveram-nos por “acidente” ou no fundo, para satisfazer um desejo de realização pessoal, transformando-se a criança num meio para atingir um fim puramente egoísta. Por favor, uma criança é um ser-humano, não é um meio de conseguir seja o que for.

Eu não quero ser assim. E reclamo o direito de viver de acordo com os meus princípios e reclamo que esses princípios sejam respeitados mas, principalmente, reclamo que PAREM de me chatear com a história de ter filhos!

Facebook

Comentar (RSS)  |  Trackback

296 comentários:

Em 15 de Dezembro de 2014 às 2:23, carla escreveu:

agora que estou com 41, os comentários do tipo: “ih, vc ta nova, vai mudar de ideia ainda” já não são mais dirigidos a mim.

mas já ouvi coisas do arco da velha:
um espírita disse:
“como assim, não ker ter filhos??? somos portais para que nossos ‘irmãos’ possam vir reparar os erros que cometeram em outras vidas…”
minha resposta:
“olha sr. xxx, supondo que a teoria espírita seja verdadeira, o que não acredito, não é problema meu se uma pessoa fez um erro no passado e agora vai retornar no tamanho de uma melancia querendo passar por onde passa uma azeitona. se depender de mim, a alminha vai ficar penando, ou entao que arrume um outro buraco pra passar, porque minha B#@% não é portal pra espírito de porco não!” kkkkkkk

outro, desta vez evangélico (aff…)
“Deus vai te castigar pq ele t fez capaz de gerar filhos e vc ta indo de encontro à vontade dele (bla bla bla)”

minha resposta?
“olha, eu nunca fiz exame pra saber se sou fértil, portanto não sei como vc consegue afirmar que sou capaz de procriar. mas se Deus me mandar pro inferno, junto com os milhares de casais INFÉRTEIS e que pagam zilhares de dinheiros pra ter filhos, indo de encontro a vontade do tal deus que os fez estéreis… entao ta otimo! será uma festa! e sem a correria de crianças ruidosas em volta d mim!” kkkkkkkkk

gente, antes de me tornar essa respondona, eu ficava muda, e as pessoas falavam o q bem queriam.
agora mudei: quem falar o q nao deve, vai ouvir o q nao ker.
e aconselho vcs q se sentem oprimidos a fazer o mesmo… uma hora a gente atinge o equilíbrio rsrsrsrsrs


« Comentários Mais Antigos

[Fonte RSS dos comentários a este artigo]

Comentar:

HTML permitido: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

*