A história da coisas
( temas focados: ambiente, economia, política, publicidade, sociedade )
Há algumas semanas correu na Internet um pequeno filme (cerca de 20 minutos) de Annie Leonard, sobre o ciclo de vida das coisas que usamos todos os dias, desde a extracção das matérias primas que as compoem até ao seu armazenamento final em lixeiras, aterros ou queima por incineração. Chama-se The Story of Stuff e é um bom documentário, em linguagem clara e acessível (mas em inglês), que tenta mostrar o que está errado com o sistema produtivo actual, especialmente no que concerne ao incentivo ao consumo da sociedade ocidental moderna e aos métodos de destruição/remoção dos bens no seu fim de vida.
A ideia geral, expressa logo no início do filme e desenvolvida ao longo dele, é que não é possível manter indefenidamente um sistema linear como o da ecnonomia dos materiais — extracção, produção, distribuição, consumo e destruição — num planeta finito. Ou seja, se não se der tempo ao planeta para regenerar os desperdícios e os voltar a transformar em matéria prima, acabar-se-á por esgotar os recursos naturais. Isto parece-me óbvio, tanto que já escrevi sobre este tema aqui no passado, mas já reparei que para muitas das pessoas que conheço não o é. A explicação da autora para este facto é que a sociedade em que vivemos propicia o consumo, quer através da produção dos bens, fazendo com que estes estejam ou pareçam estar obsoletos no menor espaço de tempo possível, quer através da publicidade, fazendo com que nos sintamos mal por estar a usar um produto fora de moda e isso impede que as pessoas tenham a percepção do quadro geral.
As soluções propostas passam por gastar menos, reutilizar e reciclar, incluindo os nossos políticos. Para mim, está aqui o principal defeito do documentário. Não que haja algum problema com estas atitudes — penso que todas elas são absolutamente essenciais se não quisermos estar a passar fome e doentes daqui a uns anos. Mas não chegam. São como estar a tomar antipiréticos e analgésicos à espera que uma infecção bacteriana passe: aliviam os sintomas e fazem-nos sentir melhor, mas não atacam a verdadeira causa da doença que, neste caso, é o excesso de população humana. O planeta não é capaz de produzir recursos suficientes para manter os quase sete mil milhões de seres humanos que actualmente o habitam. Assim, qualquer solução terá de passar obrigatoriamente pela redução da população humana e era isso que também devia ter sido referido pela autora.
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6 comentários:
Sugiro esta leitura: Malthusian catastrophe …
Cumps
Obrigado, excelente leitura para enquadramento quer do filme quer das ideias que expresso no fim do artigo. Agora só falta tempo para ler as referências mais importantes do artigo da Wikipédia…
A questão não é nova. Já antes de Malthus havia malthusianos e não-malthusianos (ou anti-malthusianos). É óbvio que, com os dados, conhecimentos e tecnologias actuais, é relativamente fácil prever que os recursos não-renováveis acabarão por se esgotar – mais cedo com mais população, mais tarde com menos população. É matemática; contas de subtrair, no caso. É só uma questão de tempo. Por definição, os recursos não-renováveis acabarão por se esgotar, nem que a população diminua drasticamente.
O que não é fácil dizer é qual o número de pessoas que é gente a mais neste planeta: 7 mil milhões? 10? 2? Sem ser perito na matéria, parece-me que por enquanto, sublinho por enquanto, o problema está fundamentalmente na distribuição dos recursos utilizados. Há recursos e meios para sustentar toda a população actual, só que quando uns usam em excesso, outros têm a menos. É também matemática; contas de dividir, neste caso.
Além disso, se a minoria esbanjadora prescindisse de uma parte dos seus luxos (seja lá o que se considere luxo), e houvesse justiça e boa distribuição, nem os desgraçados estariam na desgraça nem os previlegiados estariam a discutir estes assuntos. Eu estou incluído nestes últimos. Em vez de ter comprado este computador e estar aqui a escrever isto, eu poderia estar a plantar árvores, em voluntariado, a fazer campanhas de esclarecimento para os africanos ou asiáticos terem menos filhos, ir dormir ao pôr-do-sol para não acender luzes, etc, etc.
Mas não. Não prescindo da satisfação das minhas “necessidades” (que para outros são luxos ou desperdícios). Nem eu nem a imensa maioria (para não dizer a totalidade) dos que estarão a ler isto. A maior parte de nós não somos nem franciscanos, nem madre-teresianos, nem sequer revolucionários. Mesmo os ditos ambientalistas ou ecologistas só o são até certo ponto. Eu já vi aquele senhor da Quercus na televisão estar a dar ideias para usarmos os automóveis (privados!) de um modo mais amigo do ambiente. Como assim? Ele devia era dar ideias para vender os automóveis, reciclar o seu material em bicicletas e incentivar a administração de Portugal a promover os transportes públicos.
Bom, voltando ao problema básico, eu não sei se neste momento já há gente a mais no planeta, ou se esse ponto foi atingido há 20, 30 ou 300 anos atrás, quando começou o aquecimento global, etc. Mas partindo do princípio que já há gente a mais, podemos levantar a questão um pouco mais filosófica: quem é que está a mais? Os 300 milhões de norte-americanos que consomem 1/4 da energia mundial e 1/3 dos recursos? As famílias de 10 filhos em África que nem entram nas estatísticas de consumo de petróleo mas queimam a lenha das savanas para cozer o almoço, provocando a expansão do Sahara? Os europeus que ficam a ver televisão e internet até às tantas da noite em vez de irem dormir debaixo de umas mantas com a electricidade desligada?
Caso já haja gente a mais, isso também não se resolve com leis medievais e inumanas como a do aborto. Aliás, no caso da administração de Portugal, dirigida por José Sócrates, dão uma no cravo e outra na ferradura; por um lado promovem a lei do aborto a pedido, por outro dão “incentivos à natalidade” (embora esta parte seja uma anedota ou pura propagadanda: não é com aumento de abono só nalguns casos e só até aos 3 anos que alguém é incentivado a procriar). Deviam era dar incentivos à adopção.
Outro exemplo do cravo e da ferradura surgiu a semana passada. A administração de Portugal resolveu baixar a factura da electricidade para quem consome menos, ou penalizar quem consome mais. Mas por outro lado quem tem mais de dois filhos não é penalizado. Afinal em que é que ficamos? E porquê mais de dois filhos? Porque não membros do agregado familiar? E se o agregado familiar incluir avós, netos, tios, etc? É óbvio que dez agregados familiares com três pessoas cada um consomem e poluem muitíssimo mais que três agregados com dez pessoas cada. Porque raio é que um agregado familiar menos poluente per capita (que inclua só um filho, mas também avós ou tios ou amigos) há-de pagar mais caro que os agregados com menos membros mas mais poluentes per capita?
Termino com uma recomendação de leitura humorística para aliviar a tensão. É o texto Quarto com vista para o fim do mundo, de Ricardo Araújo Pereira, em parte sobre a questão da população. Entre outras coisas ele diz:
“Confesso que não me interesso especialmente por questões demográficas, mas tenho um problema: sempre que se publica um desses estudos segundo os quais o mundo tem excesso de população, eu sinto que sou uma das pessoas que estão cá a mais. Maldito sentimento de culpa.”.
Olá Francisco.
A razão porque há neste momento gente a mais é mesmo porque tão poucos de nós consomem tantos recursos, que são de todos. Aliás, isso está bem explícito no filme que refiro no artigo. O que não é dito é que ninguém vai querer baixar o nível de vida desses poucos; pelo contrário, são as massas a viver no chamado nível de pobreza que aspiram a chegar onde eles estão, mesmo que a única coisa que consigam é encher os subúrbios degradados das grandes cidades do ocidente.
É claro que se, de repente, todos tivessem o nível de vida que tu e eu gozamos, os recursos naturais esgotar-se-iam muito mais depressa, pouco importando o quão ambientalmente conscientes fôssemos nessa altura… e a população iria descer abruptamente. Por outro lado, se descêssemos para o nível de vida das aldeias africanas, acabava-se a medicina e os meios de produção ocidentais, a produtividade descia… e a população iria descer abruptamente. Se continuarmos como estamos, irá demorar mais tempo, mas a pressão da necessidade de energia e matérias primas irá continuar a aumentar, as desigualdades também e isto terá de estoirar por algum lado… e a população irá descer abruptamente.
É difícil dizer quem está a mais neste mundo e a opinião sobre isso irá provavelmente variar de pessoa para pessoa. Daí que a minha opinião é que se devia tentar diminuir a população gradualmente, o que pode ser conseguido controlando a taxa de natalidade (e não a de mortalidade!). Isso pode fazer-se de duas formas: diminuindo o número de filhos por pessoa ou aumentando a idade em que se tem o primeiro filho — talvez uma conjugação das duas medidas fosse mesmo o ideal.
Infelizmente esta solução esbarra em três obstáculos: (1) teria de ser uma medida adoptada em sincronia mundial e não estou a ver um consenso sobre uma coisa destas ser conseguido em nenhuma instância internacional; (2) as principais religiões são contra qualquer método contraceptivo que não a abstinência sexual e usariam toda a sua influência para se oporem a qualquer acordo neste sentido; (3) às grandes empresas interessa continuar a crescer, o que só é possível com o crescimento do consumo e dos consumidores — é essa a verdadeira razão por detrás dos vários incentivos à natalidade, que felizmente nunca dão frutos.
Conclusão? Estamos tramados. Se nos conseguirmos safar, com guerras cirúrgicas por todo o planeta para o controlo das matérias primas, com o controlo apertado das fronteiras e com o incremento da utilização de fontes de energia renováveis e reutilização e reciclagem de materiais, os nossos filhos não terão provavelmente a mesma sorte, porque a população humana não parará de crescer entretanto, as necessidades não pararão de aumentar e os recursos disponíveis de diminuir.
Conclusão? Estamos tramados.
É isso aí. Não sei se vem completamente a propósito, mas lembrei-me daquele ditado dos nossos irmãos brasileiros:
Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.
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