Estudo? Onde?
( temas focados: economia, Internet, sociedade )
Foi hoje noticia em vários meios de comunicação social (pelo menos na SIC e no Público) um estudo realizado por uma equipa de psicólogos da Universidade de Coimbra, coordenada por Eduardo Sá, sobre os gastos mensais de uma família da classe média com cada filho. Pessoalmente, reparei nesta notícia ao ler as novidades no meu leitor de RSS e bastou-me o título para fazer soar os sinos de alerta do meu detector do bizarro. Comecei por achar estranho um assunto desta natureza ter sido abordado por uma equipa de psicólogos, por não me parecer o objecto de interesse normal para este tipo de profissionais, o que me levou a ler o artigo. E a confirmar as minhas suspeitas.
Estava à espera de um qualquer estudo estatístico, em que se tivessem entrevistado umas quantas famílias e feito uma média com as respostas, talvez cruzando os gastos com filhos com os rendimentos das famílias. Esperava ver uma referência às perguntas colocadas, ao número de entrevistas, aos grupos sociais onde estas teriam sido feitas… No mínimo, esperava saber em que base de dados estatísticos se tinham baseado para chegar àqueles números. Estava enganado. Afinal, o estudo, segundo a notícia, não tinha passado de um exercício de imaginação:
“A equipa imaginou duas famílias: uma com um rendimento mensal de mil e oitocentos euros e outra com um rendimento mensal de quatro mil duzentos e cinquenta euros.”
Não havia entrevistas, não havia dados, não havia sequer menção do porquê daqueles números. Nada. Apenas a imaginação de uma equipa de psicólogos. Ora, eu não sou um psicólogo, nem um investigador social. Não tenho mesmo nenhuma formação neste campo, a não ser que contem as horas a ouvir a Sandra falar das investigações e aulas de estatística e metodologia durante estes últimos sete anos. Mas parece-me que esta investigação tem muito pouco de científico. Isto, pelo menos, baseando-me apenas neste artigo, o que me leva a outra questão: quando será que os administradores das versões on-line dos nossos orgãos de comunicação social se aperceberão das diferenças entre o papel/radiodifusão e a web? Nomeadamente, quando começarão a colocar as referências (ligações) para as fontes das suas notícias? É estranho fazerem tanto barulho por causa da pouca qualidade jornalística de blogs ou científica da Wikipédia, para dar um exemplo concreto, e depois não nos fornecerem os meios de comprovar a veracidade ou teor informativo dos seus artigos. Porque, sinceramente, não quero acreditar que este estudo se limite ao que foi noticiado. Ou então algo vai mal com a investigação social neste país.
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3 comentários:
É sem dúvida bizarro levar com um estudo destes como científico e ter sido fruto da imaginação. Mas, dois pontos relevantes.
O primeiro é que não me recordo de terem referido da entrevista que se tratava de um estudo científico, ficando apenas a referência a estudo.
Segundo, é que a imaginação pode servir mesmo como auxiliar para este exercício, embora não seja um processo científico. É fácil imaginar que uma família com um rendimento mensal de 1800 euros tem uma série de gastos e que não vive propriamente folgada. Se o objectivo era reiterar que pertencer à classe média em Portugal é lixado.. bom, nao há dúvidas disso.
Eu apenas subentendi que, se era um estudo feito por uma equipa de uma universidade e tinha sido apresentado num congresso Internacional sobre os estudos da criança, então devia ter sido um estudo científico. É claro que a imaginação pode servir como princípio para um estudo deste tipo, mas não pode ser a única base. O bom senso por vezes engana-nos
Quem me dera ser dessa classe média baixa. Na imaginação desses senhores então eu estou muito abaixo do limiar da pobreza. E aqueles que estão abaixo de mim?
Este e outros “estudos” dão a impressão que só servem para dar ocupação a quem os produz. Um dos piores exemplos (e parece-me que é um “estudo a sério”) é aquele do ranking das escolas, que não serve praticamente para nada, pois a imensa maioria das famílias só tem meios (ou até outros condicionalismos, como local de residência) para mandar os filhos para a escola pública mais perto de casa ou do trabalho, independentemente da sua posição no tal ranking.
Se calhar já estou a fugir ao tema, mas outra espécie de estudo que não serve para nada são aquelas provas de aferição do ensino básico. Ou melhor, podem eventualmente servir para alguma coisa (o que eu duvido grandemente), mas em vez de gastarem tempo e dinheiro com tais provas, para aferir os conhecimentos dos alunos bastava perguntar aos professores quais os resultados ao longo do ano.
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