A barca dos pobres
Todos os dias nos chegam notícias de que o país atravessa uma grande crise. Todos os dias nos pedem mais sacrifícios para a ultrapassar. Todos os dias nos fazem perceber que o país viveu acima das suas possibilidades e que, por isso, ficaremos mais pobres. E eu aceito isso. Aceito todos os sacrifícios e aceito que, no fim, estarei mais pobre. Aceito que estamos todos no mesmo barco e que para chegar a bom porto todos temos que remar para o mesmo lado. Estou disposto a remar com todas as minhas forças para que Portugal seja capaz de ultrapassar esta tempestade que se abateu sobre nós.
Mas atenção. Para isso todos temos que remar com a força que tivermos, todos temos que fazer os sacrifícios que formos capazes de fazer e todos temos que comer a mesma ração. Agora, se uns comem bife do lombo e lagosta, se bebem os bons vinhos e se empanturram com as melhores sobremesas e quando vão para os remos se limitam a lá apoiar as suas mãos enquanto outros fazem a força e comem as migalhas que sobram da sua mesa, então não, assim não contem comigo. Assim prefiro deixar de remar e juntar-me às vozes que se levantam contra os comandantes desta galé. Se querem o nosso esforço, o nosso sacrifício, então que comecem por dar o exemplo puxando connosco os remos e comendo à nossa mesa.
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